| PT: Diários da Bósnia: Ensaio sobre as memórias |
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| Written by Vitor Pinto in Brussels | |
| Thursday, 10 August 2006 | |
Vitor Pinto looks at Joaquim Sapinho's Bosnia Diaries, a documentary that successfully plays around with everyone's memories of the Balkan's war. Patricio Guzman afirmou um dia que um país sem documentário é como uma família sem álbum de fotografias. Embora, ao afirmá-lo, guardasse na sua mente o seu Chile natal, violado pela ditadura do General Pinochet, a citação pode aplicar-se a uma série de outros contextos. Recentemente estreado nos écrans portugueses, "Diários da Bósnia" é um documentário de Joaquim Sapinho, que se assume como o relato de uma incurssão pessoal num cenário de pós-guerra, onde o legado da destruição se filma lado a lado com a esperança ténue da regeneração. Retrato parcial de uma guerra da qual já havíamos perdido a memória. Fruto de duas viagens do realizador à Bósnia, a primeira em 1996 - três meses depois do levantamento do cerco a Sarajevo - e a segunda em 1998, "Diários da Bósnia" é "literalmente um álbum de fotografias como os álbuns de família", conta Sapinho, cuja câmara entrou nas casas abandonadas e encontrou pedaços de retratos espalhados no meio do caos. "Eu não sabia que a coisa mais valiosa são as fotografias da nossa vida passada, que servem como provas da nossa identidade. Isso marcou-me muito." Talvez por isso o realizador tenha optado na sua segunda viagem por uma filmagem quase fotográfica, onde abundam planos fixos e dilacerantes, numa opção abertamente contrária aos álbuns tradicionais onde "só guardamos as fotografias bonitas e censuramos tudo aquilo que queremos rejeitar do nosso passado". Sapinho construiu, assim, um filme sobre as suas memórias e sobre as memórias de vítimas fantasmas, "como se quisesse fazer um álbum daquilo que se quer esquecer". Assumindo um olhar subjectivo (ainda que aparentemente distante) ao mesmo tempo que recusa uma abordagem típicamente histórica, a narrativa do filme alicerça-se em flashbacks e em pequenos relatos fragmentados. É deixado claro que aquela é, antes de mais, a Bósnia do cineasta, reencontrada depois de um longo processo de montagem ("uma terceira viagem"). Essa estructura, assumidamente pessoal, abre simultaneamente uma ponte rumo às memórias do próprio espectador. Conjugando as imagens do filme com as reportagens outrora transmitidas pelos media, acabamos por encontrar espaço para criar a nossa própria narrativa e montar as imagens da nossa própria memória. Sapinho, que gozava ainda do sucesso do seu primeiro filme de ficção "Corte de Cabelo" quando partiu para a Bósnia, realizou posteriormente "Mulher Polícia" (seleccionado ao Festival de Berlim) e encontra-se actualmente a preparar o seu terceiro filme de ficção, que será novamente produzido pela produtora lisboeta, Rosa Filmes. Vitor Pinto é um jornalista que divide actualmente o seu tempo entre Portugal, Espanha e Bruxelas, onde trabalha nos sites cineuropa.org e cinergie.be. Participou na iniciativa Prix de la jeunesse do Festival de Cannes em 2001, antes de embarcar na atribulada viagem do jornalismo cinematográfico. A sua citação favorita é “I am big. It’s the pictures that got small”, dita por Norma Desmond no filme Sunset Boulevard de Billy Wilder. |
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